A rápida transformação tecnológica impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), pelas redes sociais e pelas plataformas digitais tem ampliado os desafios para a preservação da verdade, da ética e dos valores humanos. Esse é o principal alerta apresentado por Dom Oriolo, bispo da Diocese de Leopoldina (MG), em artigo que analisa os impactos das novas tecnologias à luz da encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV.

Segundo o religioso, o avanço tecnológico das primeiras décadas do século XXI alterou profundamente a forma como as pessoas se comunicam, aprendem, trabalham e convivem. Ferramentas desenvolvidas por grandes empresas de tecnologia, além da expansão da Internet das Coisas (IoT) e das perspectivas da futura rede 6G passaram a fazer parte do cotidiano e influenciam diretamente diferentes aspectos da vida humana.
Impactos além da tecnologia
No artigo, Dom Oriolo afirma que a transformação digital não se limita às mudanças na comunicação. Para ele, o uso intenso das tecnologias também produz reflexos no desenvolvimento físico, cognitivo, intelectual e emocional das pessoas.
Entre os efeitos apontados estão dificuldades de concentração, excesso de distrações, ansiedade, isolamento provocado pelo tempo excessivo diante das telas e alterações no convívio social. O bispo também chama atenção para o impacto sobre valores considerados fundamentais, como honestidade, respeito, solidariedade, justiça, transparência e responsabilidade.
O risco da pós-verdade
Outro ponto central da reflexão é o fenômeno da chamada “pós-verdade”. Conforme destaca o texto, a facilidade de compartilhamento de conteúdos nas redes digitais favorece a disseminação de informações baseadas mais em emoções e crenças pessoais do que em fatos verificados.
Dom Oriolo lembra que o termo “pós-verdade” ganhou notoriedade internacional ao ser escolhido como Palavra do Ano pelo Dicionário Oxford em 2016. A definição refere-se a situações nas quais fatos objetivos exercem menos influência sobre a opinião pública do que apelos emocionais ou convicções individuais.
Na avaliação do bispo, esse cenário favorece a desinformação, amplia a polarização social e fortalece mecanismos de manipulação da opinião pública, realidade que também pode atingir ambientes religiosos e comunitários.
Encíclica propõe resgatar a verdade
A reflexão destaca que a encíclica Magnifica Humanitas, especialmente nos parágrafos 132 a 134, apresenta a verdade como um bem comum essencial para a convivência humana.
Segundo o documento citado por Dom Oriolo, a verdade depende da verificação dos fatos, da confiança entre as pessoas e do compromisso com a realidade. Entretanto, esse patrimônio coletivo torna-se mais vulnerável em um ambiente digital marcado pela velocidade da informação, pela atuação de algoritmos e pela personalização dos conteúdos promovida pela Inteligência Artificial.
Democracia e dignidade humana
Nos trechos seguintes da encíclica, o papa Leão XIV relaciona diretamente a preservação da verdade à defesa da dignidade humana e ao fortalecimento da democracia.
O documento alerta para os riscos de que interesses tecnológicos e econômicos influenciem a circulação de informações reduzindo a importância dos fatos em favor do que gera maior visibilidade, popularidade ou lucro nas plataformas digitais.
Para Dom Oriolo, esse processo pode enfraquecer as instituições democráticas e abrir espaço para novas formas de controle social baseadas na manipulação digital.
Chamado à responsabilidade
Ao concluir sua reflexão, o bispo ressalta que a sociedade vive um período de transição tecnológica que exige discernimento, senso crítico e compromisso com a verdade. Ele recorda a frase popularmente atribuída ao escritor Mark Twain de que “uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda está calçando os sapatos” observando que, na era da Inteligência Artificial, a velocidade da desinformação se tornou ainda maior.
Para o religioso, o alerta apresentado na encíclica Magnifica Humanitas reforça a necessidade de preservar a busca pela verdade como fundamento da dignidade humana, da convivência social e da democracia.



