Mais de 900 lideranças religiosas já participaram de imersões no Inpe e no Cemaden para levar informações sobre mudanças climáticas, prevenção de desastres e proteção ambiental às comunidades

A crise climática tem aproximado dois universos que, por muito tempo, caminharam separados: a ciência e a fé. No Brasil, essa parceria já mobilizou mais de 900 lideranças religiosas de 18 estados, que passaram por uma imersão no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) para entender como o conhecimento científico pode ajudar comunidades a enfrentar eventos climáticos extremos.
A iniciativa é promovida pela Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI Brasil), que desde 2022 realizou mais de 30 encontros reunindo representantes de igrejas cristãs, religiões de matriz africana, povos indígenas, comunidades ayahuasqueiras, judaísmo, islamismo, fé Bahá’í e outras tradições religiosas.
A proposta é simples: aproximar quem produz conhecimento científico de quem tem forte influência junto às comunidades.
Ciência fora dos laboratórios
Durante as visitas, os participantes acompanham o funcionamento dos sistemas responsáveis pelo monitoramento de secas, enchentes, deslizamentos e queimadas, além de conhecerem tecnologias utilizadas pelo Inpe para acompanhar o desmatamento e as mudanças climáticas.
No Cemaden, os visitantes entendem como são emitidos alertas para situações de risco e conhecem projetos voltados à educação para prevenção de desastres. Já no Inpe, percorrem o Laboratório de Integração e Testes (LIT), o Centro de Controle de Satélites e têm contato com programas como Prodes, Deter, Programa Queimadas e a plataforma AdaptaBrasil, ferramentas que subsidiam políticas públicas de proteção ambiental e adaptação climática.
A ideia é transformar conceitos científicos em informações acessíveis, permitindo que esse conhecimento seja compartilhado por líderes que já possuem credibilidade dentro de suas comunidades.
Do aprendizado à prática
O impacto da iniciativa já pode ser observado em diferentes regiões do país. Em Rio Branco (AC), o pastor Marquinhos Maciel, da Comunidade Batista Vida (CBVida), participou de uma das primeiras imersões promovidas pela IRI Brasil, em 2022. Segundo ele, compreender a relação entre as atividades humanas e os desastres ambientais mudou sua forma de enxergar a questão climática.
A partir da experiência nasceu o programa CBVida Ambiental, responsável por projetos como o Green Day, mutirão que já retirou mais de uma tonelada de resíduos das margens do igarapé São Francisco.
A igreja também passou a investir em energia solar, coleta seletiva, pontos de recarga para veículos elétricos e criou o projeto “Uma Vida, Uma Árvore”, que já resultou no plantio de mais de 580 mudas.
Outra iniciativa foi a criação da primeira Brigada Voluntária Inter-Religiosa do Brasil para atuação em emergências climáticas. Durante as enchentes do Rio Acre, o grupo também distribuiu filtros de água para famílias atingidas e desenvolveu um projeto que transforma óleo de cozinha usado em produtos de limpeza destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Ecologia baseada em evidências
A experiência também influenciou a atuação do bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ricardo Hoepers.
Depois de conhecer o trabalho realizado pelo Inpe e pelo Cemaden, ele passou a defender de forma ainda mais enfática a utilização do conhecimento científico como ferramenta para fortalecer a chamada ecologia integral.
Segundo o religioso, compreender como os institutos monitoram o clima reforçou a importância de basear decisões em evidências, princípio que também norteou os debates da Campanha da Fraternidade 2025, dedicada ao tema da preservação ambiental.
Conhecimento tradicional e ciência caminham juntos
Na Amazônia paraense, a ialorixá Mam’eto Nangetu, nome religioso de Neide Monteiro Rodrigues, também levou os conhecimentos adquiridos para as ações desenvolvidas pelo Instituto Nangetu de Tradição Afro-Religiosa e Desenvolvimento Social.
O trabalho passou a incorporar práticas de prevenção de desastres junto às comunidades tradicionais.
Em reconhecimento aos resultados, o instituto recebeu, em 2023, o prêmio da campanha #AprenderParaPrevenir, promovida pelo Cemaden.
Para a líder religiosa, o diálogo com pesquisadores fortaleceu uma relação de cuidado com a natureza que sempre esteve presente nas religiões de matriz africana.
Aliança amplia alcance da ciência

Para o diretor do Inpe, Antonio Miguel Vieira Monteiro, iniciativas como essa ampliam o alcance social do conhecimento produzido pela instituição.
Segundo ele, quando informações científicas chegam às comunidades por meio de lideranças que já possuem confiança da população, aumentam as chances de gerar mudanças concretas na prevenção de desastres e na proteção ambiental.
O coordenador da IRI Brasil, Carlos Vicente, destaca que cientistas e religiosos compartilham um objetivo comum: melhorar a qualidade de vida das pessoas e fortalecer a proteção das florestas, dos recursos hídricos e do clima.
Com o aumento da frequência de secas, enchentes, deslizamentos e ondas de calor em diversas regiões do país, a expectativa é ampliar o programa e formar uma rede nacional de lideranças preparadas para disseminar informações sobre adaptação às mudanças climáticas, prevenção de riscos e conservação ambiental.



