
Passagem do ator pela Antártica chama atenção para o laboratório Criosfera 1, referência em monitoramento climático com participação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais há mais de dez anos
A passagem do ator norte-americano Will Smith pela Antártica colocou os holofotes internacionais sobre um dos mais importantes projetos científicos brasileiros em operação no continente: o laboratório Criosfera 1, que conta com participação ativa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) há mais de uma década. O local serviu de cenário para gravações da série documental “De Polo a Polo com Will Smith”, produção da National Geographic exibida na plataforma Disney+.

Instalado em 2012 no centro-oeste da Antártica, a aproximadamente 600 quilômetros do Polo Sul, o Criosfera 1 é um laboratório remoto, automatizado e operado exclusivamente com energia solar e eólica. O projeto é coordenado cientificamente pelo professor Heitor Evangelista, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e desenvolvido em cooperação com diversas instituições brasileiras, entre elas o INPE, parceiro desde a implantação da estrutura.
A estação permite o monitoramento contínuo de variáveis atmosféricas e ambientais ao longo de todo o ano, mesmo durante o rigoroso inverno antártico. Os dados coletados contribuem para a compreensão da dinâmica do clima polar e de suas conexões com o sistema climático global, incluindo reflexos diretos sobre o Brasil.

Durante a visita, Will Smith conheceu de perto o funcionamento do laboratório e conversou com os pesquisadores brasileiros Heitor Evangelista (UERJ), Heber Passos (INPE) e Franco Villela (INMET). O grupo explicou os desafios logísticos e científicos enfrentados em uma das regiões mais inóspitas do planeta e a importância estratégica das pesquisas realizadas para o estudo das mudanças climáticas.
INPE mantém presença técnica e científica no projeto

A participação do INPE no Criosfera 1 envolve apoio científico, tecnológico e operacional, além da atuação direta de seus profissionais em missões antárticas. Um dos principais representantes do Instituto no projeto é o técnico sênior Heber Passos, que acumula mais de 35 missões na Antártica, incluindo dez deslocamentos ao Criosfera 1.
Ao lado do engenheiro aposentado do INPE Marcelo Sampaio, Heber integra a equipe responsável por assegurar o funcionamento contínuo da estação. Entre as atribuições estão a instalação e manutenção dos sistemas de geração de energia renovável, do banco de baterias, dos sensores e dataloggers da estação meteorológica automática, além dos sistemas de comunicação e transmissão de dados.
“Nosso trabalho é garantir que a estação esteja plenamente operacional em condições extremas, assegurando energia, comunicações e estabilidade estrutural. Isso permite que as medições sejam feitas com segurança e precisão, o que é essencial para o sucesso científico do projeto”, explica Heber Passos.
Legado histórico da pesquisa brasileira na Antártica

A atuação do INPE na Antártica integra uma trajetória consolidada da ciência brasileira no continente. Um dos nomes centrais dessa história é o pesquisador Alberto Setzer, que coordenou, entre 1984 e 2010, o Projeto de Meteorologia Antártica do Brasil. A iniciativa foi responsável pela implantação do sistema meteorológico do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) na Estação Antártica Comandante Ferraz e em ilhas da Península Antártica.
Parte dos equipamentos utilizados atualmente no Criosfera 1 teve origem nesse trabalho pioneiro. Falecido em 2023, Setzer deixou um legado decisivo para o fortalecimento da pesquisa ambiental brasileira em regiões polares, que segue orientando as ações do INPE na Antártica.
Visibilidade internacional e acesso aos dados
A visita de Will Smith reforça a relevância internacional do Criosfera 1 e amplia a visibilidade da ciência brasileira em um momento crítico de intensificação das mudanças climáticas globais. Para o INPE, a participação no projeto reafirma o compromisso institucional com a pesquisa de excelência e a cooperação científica internacional.
A participação do ator no laboratório pode ser conferida no primeiro episódio da série “De Polo a Polo com Will Smith”, disponível no Disney+ e também no YouTube, em inglês, a partir de 26 minutos e 30 segundos.
Os dados meteorológicos do Criosfera 1, atualizados de hora em hora, estão disponíveis ao público no mapa de estações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), bastando buscar pelo nome “Criosfera” ou pelo código da estação c891.
Por que a Antártica importa para o Brasil?
Apesar da distância geográfica, a Antártica exerce influência direta sobre o clima brasileiro. As massas de ar frio formadas no continente afetam padrões de temperatura, regimes de chuva e eventos extremos no Hemisfério Sul. Dados coletados por estações como o Criosfera 1 ajudam a compreender fenômenos como frentes frias intensas, ondas de calor, secas prolongadas e alterações no comportamento das correntes atmosféricas que impactam o Brasil.
O monitoramento contínuo do ambiente antártico também contribui para projeções climáticas globais mais precisas, fundamentais para políticas públicas, agricultura, segurança hídrica e planejamento urbano. Por isso, a presença científica brasileira na Antártica é estratégica — não apenas para a pesquisa internacional, mas para a vida cotidiana da população brasileira.



