Importação de morango do Egito dispara e ameaça produção no Sul de Minas

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Importação de morango do Egito cresce no Brasil e já afeta produtores do Sul de Minas, principal região produtora da fruta em Minas Gerais

O aumento das importações de morango congelado do Egito tem gerado preocupação entre produtores de Minas Gerais, principal estado produtor da fruta no Brasil. Apenas em janeiro de 2026, o volume importado pelo país cresceu 221% em relação ao mesmo mês de 2025, impactando diretamente o mercado nacional.

Segundo dados do Sistema Faemg Senar, o produto estrangeiro chega ao Brasil a preços muito inferiores aos praticados no mercado interno, levantando suspeitas de concorrência desleal.

Minas Gerais concentra cerca de 11 mil produtores de morango, sendo a maior parte da agricultura familiar, com produção fortemente concentrada no Sul de Minas, especialmente na microrregião de Pouso Alegre.

Crescimento acelerado das importações

De acordo com a analista técnica do Sistema Faemg Senar, Mariana Moreira Marotta, o aumento das importações tem relação com o acordo comercial firmado entre o Egito e o Mercosul em 2010, que passou a reduzir gradualmente as tarifas de importação.

A entrada do morango egípcio no mercado brasileiro começou a ganhar força a partir de 2022. Entre 2023 e 2025, o volume importado cresceu mais de 800%, impulsionado pela redução tarifária que pode chegar a 60%.

Somente em 2025, cerca de 41 mil toneladas do produto entraram no mercado brasileiro. Em janeiro deste ano, foram importadas 3,3 mil toneladas, aumento de 221% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Minas é líder na produção

Minas Gerais é o maior produtor de morango da América Latina. Em 2023, o estado produziu aproximadamente 190 mil toneladas da fruta em cerca de 4.800 hectares, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

A cultura tem grande impacto social, já que 98% dos produtores pertencem à agricultura familiar, gerando emprego e renda no meio rural.

Mesmo com a produção expressiva, o volume de importações continua em crescimento. Em 2025, Minas Gerais importou cerca de US$ 2,3 milhões em morangos e derivados, o equivalente a aproximadamente 2 mil toneladas. No ano anterior, o volume havia sido de 743 toneladas, o que representa crescimento de 164%.

Suspeita de concorrência desleal

A diferença de preços tem chamado atenção de produtores e autoridades. Enquanto o morango é vendido no mercado egípcio por cerca de R$ 15 o quilo, o produto é exportado para o Brasil por aproximadamente R$ 7.

Já o custo médio de produção em Minas Gerais gira em torno de R$ 8,50 por quilo, o que levanta suspeitas de prática de dumping, quando um produto é exportado a preços abaixo do custo para conquistar mercado.

O tema foi discutido em audiência pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Durante a reunião, o deputado Dr. Maurício afirmou que a diferença de preços e até o custo do frete chamam atenção.

Segundo ele, enquanto produtores do Sul de Minas gastam cerca de R$ 0,92 por quilo para transportar a fruta até Salvador, o frete do produto importado chega a cerca de R$ 0,30 por quilo.

Produtores já sentem prejuízos

No campo, produtores relatam queda nas vendas e nos preços pagos pela indústria. A produtora Solange de Oliveira Paiva, que cultiva cerca de 140 mil pés de morango em Ipuiúna, registrou redução significativa nos valores pagos pela fruta destinada à produção de polpas e sucos. O preço caiu de R$ 17 no fim de 2025 para cerca de R$ 8 em fevereiro deste ano.

Já a produtora Iasmin Ribeiro e Silva, de Alfredo de Vasconcelos, afirmou que perdeu parte do mercado de morango congelado e passou a buscar novas alternativas de venda.

Segundo ela, uma das estratégias tem sido negociar diretamente com supermercados para evitar os preços baixos praticados em centrais de abastecimento.