Chuvas ficaram até 20% mais intensas em Minas e agravaram tragédia em Juiz de Fora, aponta estudo

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Equipes de resgate removem destroços em busca de vítimas de um deslizamento de terra causado por fortes chuvas no bairro Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora (Foto: Pablo Porciúncula/AFP)
Análise do ClimaMeter indica que aumento de 1,3°C elevou volume de precipitação em Minas. Estudo aponta que aquecimento global tornou chuvas em Minas até 20% mais intensas e agravou tragédia com 59 mortes em Juiz de Fora até o momento

As chuvas que atingiram Minas Gerais entre os dias 22 e 24 de fevereiro de 2026 foram potencializadas pelo aquecimento global e se tornaram mais intensas do que seriam em um cenário climático do passado. A conclusão é de uma análise do projeto ClimaMeter, que aponta influência direta das mudanças climáticas provocadas pela ação humana no agravamento do episódio.

De acordo com o estudo, o planeta já aqueceu cerca de 1,3°C, o que elevou o volume de precipitação em eventos semelhantes em até 20%. A variabilidade natural do clima contribuiu para a formação da tempestade mas não explica sozinha a intensidade observada.

Juiz de Fora registrou volume recorde

Em Santa Luzia, na Zona Sul de Juiz de Fora, córrego saiu da calha (Foto: Vanessa Bhering)

Em apenas três dias, o município de Juiz de Fora acumulou 229,9 milímetros de chuva — volume equivalente a mais de um mês de precipitação. O total mensal chegou a 579 mm, cerca de 240% acima da média histórica de fevereiro.

O impacto foi severo: inundações generalizadas, deslizamentos de terra, evacuações em larga escala e pelo menos 59 mortes confirmadas em Minas Gerais, além de pessoas ainda desaparecidas. Também houve danos significativos à infraestrutura urbana.

Segundo Suzana Camargo, pesquisadora brasileira da Universidade de Columbia, o aumento na frequência e intensidade de eventos extremos é uma consequência esperada das mudanças climáticas.

Ela destaca que, embora o foco da análise seja Minas Gerais, chuvas intensas também atingiram áreas de São Paulo e Rio de Janeiro, com previsão de continuidade das precipitações na região nos dias seguintes ao evento.

O que mudou no padrão climático

A análise do ClimaMeter comparou padrões meteorológicos semelhantes em dois períodos: 1950–1987 e 1988–2025. O estudo utilizou dados do ERA5 do programa Copernicus e métodos de análogos climáticos.

Entre as principais conclusões estão:

  • Eventos comparáveis passaram a registrar até 6 milímetros a mais de chuva por dia, tornando as condições cerca de 15% a 20% mais úmidas do que antes do aquecimento recente;

  • As temperaturas próximas à superfície estão entre 0,8°C e 1,5°C mais altas do que em décadas anteriores;

  • O atual nível de aquecimento global já torna esperados episódios de precipitação extrema com maior potencial destrutivo;

  • A variabilidade natural não explica isoladamente o aumento observado no volume de chuva.

Para Davide Faranda, um dos autores do estudo, padrões que antes geravam chuva moderada agora resultam em precipitações substancialmente mais intensas, ampliando o risco de enchentes, sobretudo em áreas com baixa capacidade de adaptação.

Vulnerabilidade amplia impactos

(Foto: Felipe Couri)

Os pesquisadores alertam que fatores como urbanização em áreas de risco, ocupação de regiões de baixa altitude e vulnerabilidade social também contribuem para a magnitude dos danos.

Neven Fučkar, da Universidade de Oxford, ressalta que o cenário exige gestão de risco mais adaptativa e fortalecimento da resiliência urbana, especialmente diante de um clima em transformação.

Alerta já previsto pela ciência

Os resultados do ClimaMeter estão alinhados com as conclusões do sexto Relatório de Avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que aponta o aumento da precipitação extrema nas regiões tropicais como consequência direta do aquecimento atmosférico.

O estudo foi conduzido pelo ClimaMeter, iniciativa financiada pela União Europeia e pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). A metodologia detalhada está disponível na publicação original.