Relógio do Apocalipse alerta: inteligência artificial amplia riscos criados pelo homem

Ciência e Tecnologia Destaque Notícias
Avanço da inteligência artificial reacende debate sobre riscos e responsabilidades humanas
Relógio do Apocalipse cita a inteligência artificial como risco global, mas especialistas alertam: o perigo está no uso político e militar da tecnologia
Por Rosy Pantaleão/TV Uai

Ao ajustar o Relógio do Apocalipse para 85 segundos da meia-noite, o Boletim dos Cientistas Atômicos incluiu a inteligência artificial (IA) entre os fatores que aumentam o risco de uma catástrofe global. A menção reacendeu o debate: afinal, a IA representa uma ameaça existencial real ou está sendo usada como atalho para explicar decisões humanas cada vez mais perigosas?

No relatório divulgado em janeiro de 2026, o Conselho de Ciência e Segurança do Boletim alerta que o avanço acelerado da IA – especialmente em áreas militares, biológicas e informacionais – ocorre sem regras globais claras. O temor é que sistemas cada vez mais autônomos passem a atuar em processos críticos reduzindo o controle humano e ampliando o risco de erros em cenários de alta tensão.

Onde está o risco real

Especialistas ponderam que a inteligência artificial não toma decisões por conta própria. Ela executa tarefas, cruza dados e gera respostas a partir de objetivos definidos por humanos. O perigo, portanto, não estaria na tecnologia em si mas na forma como governos, empresas e forças armadas escolhem utilizá-la.

Em ambientes militares, a IA pode acelerar análises, encurtar o tempo de resposta e automatizar sistemas sensíveis, inclusive ligados a defesa e comando. Em situações de conflito, isso pode significar menos espaço para negociação, avaliação política ou correção de erros — um cenário especialmente perigoso quando envolve potências nucleares.

IA, desinformação e caos informacional

Outro ponto destacado no relatório é o papel da IA na amplificação da desinformação. Modelos avançados já são capazes de produzir textos, imagens e vídeos falsos em escala industrial dificultando o debate público baseado em fatos. Esse fenômeno enfraquece democracias, contamina decisões políticas e dificulta respostas coletivas a crises reais como pandemias, mudanças climáticas e guerras.

Nesse contexto, a IA funciona como multiplicadora de problemas já existentes e não como sua origem. Sem regulação, transparência e alfabetização digital, o impacto tende a se agravar.

O risco de culpar a tecnologia

Ao incluir a IA como ameaça existencial, o Relógio do Apocalipse chama atenção para um dilema importante: há o risco de a tecnologia se tornar um bode expiatório conveniente, desviando o foco da responsabilidade política e diplomática.

Crises nucleares, colapsos climáticos e conflitos armados não são produzidos por algoritmos mas por decisões humanas. A IA pode acelerar processos — bons ou ruins —, mas não substitui escolhas estratégicas, nem valores.

Alerta, não profecia

O Relógio do Apocalipse não prevê o fim do mundo. Ele funciona como um sinal de alerta sobre tendências perigosas criadas pela própria humanidade. No caso da inteligência artificial, o recado é claro: sem cooperação internacional, limites éticos e controle humano efetivo, a tecnologia pode agravar riscos que já estão fora de controle.

O problema, portanto, não é a máquina — é quem está no comando dela.