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Perfil do Senador
O que mais caracterizava a personalidade do padre José Bento, e se evidenciou logo ao assumir o cargo de vigário da Capela do Mandu, era o seu espírito de liderança e notável capacidade de realização, o que veio a contribuir de maneira sensível para o rápido desenvolvimento do lugar.
Ao mesmo tempo que assumia a direção espiritual do arraial, o padre José Bento tornava-se também o seu chefe político, influindo, com a sua presença marcante, nos altos destinos reservados à nova freguesia. Os trabalhos realizados durante dez anos de sua vida paroquial, sua notável atividade posta a serviço do arraial do Mandu, repercutiu em toda a região, tornando-se logo conhecido e admirado.
Foi quando, entusiasmado pelos ideais liberais que percorriam o país, e demonstrando uma tendência natural pela política, deu o primeiro passo nessa carreira, fundando o Partido Liberal no povoado. Daí por diante, mesmo em detrimento de suas funções eclesiásticas, dedicou-se prazerosamente à política, na qual estava, talvez, a sua verdadeira vocação.
Embora o padre José Bento fosse o chefe incontestável do lugar, respeitado e estimado por muitos, não gozava, entretanto, das simpatias gerais, pois não deixava de ser autoritário, e muitas vezes violento nos seus atos, tanto públicos como particulares, o que caracterizava o seu espírito de mandonismo e intransigência com os seus adversários. De espírito liberal, não obedecia as injunções partidárias e nem preceitos sociais, principalmente os que se referiam à sua vida eclesiástica. Como sacerdote político, vivia mais ou menos afastado da Igreja. Sua vida doméstica era como a de qualquer secular; sua casa vivia franqueada e entregue à freqüência dos jantares e reuniões noturnas. Tinha ele em sua companhia uma filha legitimada, não se preocupando de modo nenhum com os reparos dos desafetos sobre o seu procedimento licencioso.
O padre José Bento procurava introduzir nos hábitos da vila as etiquetas da fina sociedade da corte, e ele próprio, em bailes, figurava em comissões de recepção, fazendo timbre em revelar os seus dotes físicos, que eram de um belo homem. Promovia saraus artísticos, que despertavam o interesse e o gosto da população pela arte. Não deixou de influenciar também nos costumes, razão pela qual as famílias de destaque vestiam-se com apuro e tinham em suas casas mobílias de luxo, ricos serviços de mesa, prataria, e mantinham, para os seus serviços, um pajem vestido de libré.
No Rio, freqüentando a alta roda, onde se reuniam os grandes homens da época, tanto da política como das letras, o senador adquiriu hábitos que não deixavam de escandalizar a moral provinciana do arraial.
Não obstante as dissensões políticas e desavenças pessoais entre os chefes dos grupos que disputavam a direção da vila, houve, em 1835, um acontecimento social que bem demonstra não ter sido, a princípio, tão grande a separação entre as famílias naquela época. Refere-se ao casamento de d. Possidônia Ferreira de Mello, filha do senador, com Francisco de Paula Pereira de Mello, irmão de Antônio de Barros Pereira de Mello, que seria mais tarde comandante da Guarda Nacional e chefe do Partido Coiiservador local, oponente do senador José Bento. Mas, com a evolução dos acontecimentos e a expansão dos rancores partidários, acentuou-se ainda mais a separação entre os partidos oponentes, criando-se na vila um clima pesado de ódio e desconfianças. Essa ordem perturbada visava mais o senador José Bento que o partido e seus correligionários. O que se planejava era prejudicar a pessoa e o prestígio de José Bento, usando para isso todas as armas, inclusive procurando denegrir a sua moral, valendo-se das atitudes seculares do próprio senador.
Como senador, a atuação de José Bento era das mais destacadas. Representante do povo, jornalista e tribuno, era José Bento o mais destemido lutador na terrível oposição que fez o Partido Liberal ao primeiro imperador, sobressaindo-se na luta parlamentar que produziu a revolução de 7 de abril. Tomava parte ativa nos maiores debates que se travavam no Senado, não se contando as pequenas questões em que sempre era solicitado a intervir, pela sua inteligência e pelo interesse patriótico que lhes eram próprios. No movimento pela maioridade de dom Pedro II, em que tomaram parte os grandes homens da época, o senador José Bento foi uma das principais figuras. Formou-se uma sociedade política, que teve na história o nome de "Clube Maiorista", da qual José Bento foi um dos mais destacados membros, e cujas reuniões se realizavam, ora em casa de José Bento, ora em casa do senador José de Alencar. Julgando perniciosos e fracos os governos regenciais, o "Clube Maiorista" empenhou-se na possibilidade de proclamar a maioridade do menino imperador, advogando com calor aquela medida revolucionária, para salvar da anarquia as instituições. Em uma memorável sessão do Senado, José Bento se destacou como a primeira figura dessa jornada, com seu talento e patriotismo. Diz um escritor liberal, testemunha do acontecimento, que "José Bento, numa atitude patética, abraçando um busto do jovem imperador, exortava o povo e seus representantes a aprovarem aquela medida, com a fisionomia móbil e ardente, onde transpareciam nítidas as nobres paixões de sua alma patriótica e entusiasta......" A vitória final dos liberais repercutiu intensamente, trazendo às instituições, pelo menos temporariamente, a paz e a tranqüilidade.
Também na revolução de 1842, o senador José Bento não foi estranho aos acontecimentos, pois participava da "Sociedade dos Patriarcas Invisíveis", cujos chefes liberais promoveram a rebelião, os quais ser reuniam diariamente em sua casa.
De tudo se conclui que o papel representado por José Bento no Senado do Império foi dos mais atuantes e respeitados.
Senador José Bento
Perfil do Senador
"O Assassinato do Senador José Bento"
* Estórias do Mandu - Eduardo Toledo
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