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Enforcamento
Na manhã de 1 de julho de 1846, a Vila de Pouso Alegre assistia com curiosidade e ao mesmo tempo com pesar, um triste espetáculo: a execução de um condenado à morte. De todos os recantos da vila afluíra a população, a fim de assistir à passagem do sentenciado pelas ruas da cidade e a sua execução.
Partindo do Largo do Rosário, onde situava-se o pelourinho, seguia a procissão que conduzia o escravo Antônio Congo, condenado à morte por enforcamento, em direção ao Morro das Cruzes, onde tinha sido erguida uma forca para a execução da sentença.
Antônio Congo, escravo de José Alves de Siqueira Paixão, havia praticado um crime infame, em São José das Formigas (Paraisópolis), que era, então, distrito da Vila de Pouso Alegre, no dia 24 de novembro de 1845. Segundo o depoimento e confissão do próprio criminoso, aquele trágico acontecimento se dera da seguinte maneira: "Estando José Alves em sua casa, acompanhado da sua escrava Thereza da Nação Mina, mulher de Antônio Congo, e de seus escravos Vicente e Custódio, mandou chamá-lo a sua presença para castigá-lo por ter fugido. Chegando Antônio Congo em casa de sua vítima, depois de longa e relutante demora, cravou-lhe em seguida uma facada no "sangrador-". Embora ferido, José Alves procurou escapar correndo para o seu quarto, Antônio Congo, porém, o alcançou e deu-lhe várias facadas, nas costas e na mão, ferindo-o gravemente, causando assim a sua morte.
Preso pelo subdelegado de São José das Formigas, Vicente Thomaz de Oliveira, Antônio Congo declarou "que o motivo de ter assassinado o seu senhor foi devido a amizade que ele tinha com sua mulher há doze anos, pouco depois que com ela o fez casar. Em conseqüência do seu ciúme era castigado pelo seu senhor constantemente, e por isso era obrigado a fugir. Foi então que deliberou cometer esse crime, no ato de ser chamado para o castigo."
Levado a julgamento em Pouso Alegre, em 15 de abril de 1846, o africano Antônio Congo foi condenado à morte por enforcamento. Era o juiz de direito, interino, o dr. Antônio Muniz Barreto. A acusação foi feita pelo promotor, dr. João Bressage Leite, e a defesa pelo dr. José Inocêncio de Campos, nomeado pelo juiz como advogado do réu.
Obedecendo o ritual da época, o condenado era conduzido em procissão ao largo da forca para ser executado.
O condenado, de sobrecenho carregado e cabeça baixa, vestia urn capuz que seria usado na execução. Caminhava sereno, sem mostrar perturbação diante do povo que se reunira para vê-lo passar. Aquele cortejo aparatoso e espetacular seguia acompanhado pela força da Guarda Nacional, para isso requisitada pelo juiz municipal e executor da sentença, cel. Julião Florence Meyer, do escrivão, do tabelião Constantino Gonçalves de Oliveira e do oficial de justiça Luiz Ferreira de Camargo, o qual ia adiante fazendo a leitura da sentença em voz alta.
A justiça, com todo o aparato da lei, levava o réu pela rua que subia o morro a caminho do patíbulo.
O largo da forca, situado no topo do morro, tinha sido devidainente preparado e limpo para a execução. O povo cercava lateralmente o largo, e as janelas das casas próximas estavam literalmente cheias, quando chegou o sentenciado com todo o cortejo da justiça.
Entre a curiosidade de uns e o horror e a consternação de outros, toda a população se sentia abalada com aquele acontecimento.
E assim teve início o último ato daquele drama. O condenado galgou os degraus da escada até a plataforma, onde o carrasco cobriu a sua cabeça com o capuz, e, depois de ajustar a corda em torno do seu pescoço, deu o impulso final. Seu corpo se contorceu a princípio, depois permaneceu imóvel, oscilando como um pêndulo diante dos olhares atônitos dos assistentes.
Por fim, segundo o costume, após o enforcamento toda a justiça presente atestou a execução.
Curiosamente, o algoz dessa sentença foi o negro Fortunato José, escravo de João de Paiva, em Lavras, que também fora condenado à morte, mas teve a pena comutada para prisão perpétua, com a condição de servir de carrasco na província de Minas Gerais.
Fortunato havia assassinado d. Custódia, viúva de João de Paiva prostrando-a com bordoadas. Dado à embriaguez e outros vícios, era admoestado, freqüentemente, por d. Custódia. Fortunato criou-lhe ódio e um dia, enfurecido, matou-a.
Fortunato era alto, musculoso, ainda forte em 1877, quando morreu aos 69 anos de idade e quase 44 de prisão em Ouro Preto, de onde saia apenas para fazer as execuções (87 ao todo) nas localidades de Minas. Era o algoz oficial, requisitado quando necessário.
Ante o horror desse quadro bárbaro, a população de Pouso Alegre se sentiu abalada com a execução daquele infeliz escravo. Mas a justiça tinha que ser feita, e o réu tinha que expiar o seu crime.
Porém, a repercussão negativa daquela execução inviabilizou outras semelhantes, sendo esta a única realizada em Pouso Alegre.
Curiosidades
O Ribeirão das Mortes
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Enforcamento
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