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A Rede Mineira de Viação
Até o final do século passado, Pouso Alegre, escondida entre as tranqüilas montanhas do Sul de Minas, vivia quase isolada do resto do país, olhando o mundo de longe, sem ter meios de comunicação com os centros mais adiantados. As comunicações existentes; eram feitas por duas estradas que, dobrando a Mantiqueira, desciam serra abaixo até alcançar o Vale do Paraíba, onde passava a Estrada de Ferro D. Pedro II, que era o meio mais moderno de ligação com a cidade do Rio de Janeiro. Por estas duas velhas estradas transitavam estafetas a cavalo, levando a rnala postal, tropas de burro, trole ou carroças, além do carro de boi, que faziam o transporte de passageiros e cargas. Na época viajava-se, tradicionalmente, a cavalo, de trole ou de liteira, quando se tratava de doentes. Nada mais se dispunha além desses rudimentares meios de transporte e comunicação.
Por aí pode-se avaliar as dificuldades que entravavam o progresso e impediam o desenvolvimento de toda a região do Sul de Minas. Por isso, a chegada dos trilhos da Rede Sul-Mineira a Pouso Alegre, em 1895, marcou o início de uma nova era para a história da cidade, trazendo como conseqüência um surto de progresso e comodidades que possibilitaram novas perspectivas a toda a região.
Iniciando-se o tráfego ferroviário, Pouso Alegre, como toda a região do Sul de Minas, ficaram ligadas aos centros mais desenvolvidos do país, Rio de Janeiro e São Paulo, através de um ramal que ia de Soledade de Minas até Sapucaí. Era o elo de ligação com o progresso, que tirava toda uma região do isolamento e do atraso.
A estação da estrada de ferro passou, então, a ser o centro das atenções dos pouso-alegrenses, tornando-se hábito o passeio até à gare todas as tardes, à espera dos trens.
A estação, em forma de chalé, com largos beirais, apresentava um grande movimento durante a chegada dos trens, com embarque e desembarque de passageiros, descarga de mercadorias e a presença sempre constante de um grande número de curiosos que lotavam a sua plataforma. A estação viveu dias festivos por ocasião de recepções a figuras de relevo, como Dom Nery, 1º Bispo de Pouso Alegre, na sua chegada em 1901; ao arcebispo Dom Giulio Tonti, Núncio Apostólico, em 1903; a dom Otávio, em 1916; senador Eduardo Amaral, então presidente do Estado e outros, recepções essas abrilhantadas por bandas de música, pelo espocar de foguetes e por frenéticas aclamações do povo. Viveu também momentos de preocupação durante a revolução de 1932, com o movimento de tropas que seguiam para a frente de combate, etc. Por isso, a estrada de ferro passou a ocupar desde o princípio um lugar de destaque na vida de Pouso Alegre. E a sua importância era tal que uma medida prejudicial à cidade, tomada pela direção da Rede Sul-Mineira, em fins de 1914, suprimindo os trens diários para São Paulo, provocou uma revolta popular, com comícios de protesto e petições, que culminou com a depredação da estação, incêndio de vagões e saque ao seu armazém. O povo enfurecido arrancou o sino da estação e o atirou no Rio Mandu.
O jornal da época, "O Repórter", de propriedade de Eduardo Gouvêa e Castorino Silva, do qual fizemos um resumo, assim noticiou os acontecimentos:
"A Supressão dos Trens - Ocorrências lamentáveis - O Resultado da desídia e descaso de uma administração - O povo age na defesa do seu brio ultrajado".
"Eram mais do que esperados os fatos que se desenrolaram nesta cidade nos dias 29 e 30 de novembro e 1º do corrente. O povo unido e solidário precisava agir na reivindicação de um direito de há muito adquirido, e em protesto contra o incoerente erro de uma administração ferroviária, suprimindo trens a pretexto de economia e mantendo outros exclusivamente a título de engrossamento político ... O povo calmo e civilizado desta cidade precisou agir, porque os seus protestos, as medidas suasórias tomadas pelos seus dirigentes, não ecoaram e nem produziram resultados satisfatórios junto a essa administração nefasta....." E segue noticiando os fatos: "Conhecido que foi no dia 29 de novembro último, que não seriam atendidas pela administração da Rede as justas aspirações do povo pouso-alegrense, às 19 horas reuniram-se no Largo da Catedral aproximadamente 500 pessoas que, entre vivas e morras, se dirigiram para as proximidades da estação onde, em menos de 3 minutos, três carros foram tirados do desvio, sendo um tombado, outro carregado de café incendiado, escapando um para inflamáveis, devido ao seu peso elevado. Nesse dia, o povo se deu por satisfeito, porém, no dia seguinte, às mesmas horas,.já o Largo estava ocupado por enorme multidão, avaliada seguramente em 2.000 pessoas, que, como uma só, desceu a avenida em demanda à estação. O diretório político local dirigiu-se imediatamente para lá com o intuito de conter a multidão, o que conseguiu, transformando aquele "meeting" numa entusiástica manifestação de protesto. Porém, no dia 1º do corrente o povo já se achava reunido outra vez no mesmo local, e como uma massa compacta invadiu a estação inutilizando tudo quanto encontrou, inclusive material para expediente, telégrafo e móveis, não escapando do ímpeto popular nem mesmo o próprio edifício, que ficou bastante danificado. Ainda não contente, incendiou mais dois carros, que desapareceram na voragem das chamas..."
Depois de mais de.meio século de serviços prestados a toda a região, a então Rede Mineira de Viação começou a mostrar sinais de deterioração. Com o mesmo traçado original, cheio de curvas e velocidade de 30 km por hora, em média, a estrada não acompanhou o progresso, e apresentava um serviço bastante deficiente. O povo dizia que as iniciais R.M.V. significavam "Ruim Mais Vai,..". Nos anos 80 o ramal foi finalmente extinto, por ser considerado antieconômico.
Atualmente, alguns saudosistas constituíram uma sociedade que está promovendo a reconstrução de um trecho da estrada, em Pouso Alegre, com fins turísticos.
Curiosidades
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O Banquete dos Pobres
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A Rede Mineira de Viação
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